“Enquanto a sociedade feliz não chega, que haja pelo menos fragmentos de um futuro em que a alegria é servida como sacramento, para que as crianças aprendam que o mundo pode ser diferente. Que a escola, ela mesma, seja um fragmento do futuro...” (Rubem Alves)





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Castro Alves



A terceira fase do Romantismo brasileiro não se preocupa apenas com o “eu”, mas também com a sociedade. Os poetas desse período são chamados de poetas “condoreiros”, influenciados pelo escritor francês Victor Hugo eles defenderam a justiça social e a liberdade. Enquanto na Europa defendem a classe operária da exploração, no Brasil a luta é pelo fim da escravidão e pela república. Nesse período destaca-se Castro Alves.
Antonio Frederico de Castro Alves nasceu na Bahia em 1847, na antiga cidade “Curralinho”, hoje chamada de “Castro Alves”. Estudou direito em Recife e em São Paulo. Vivia com a triz portuguesa Eugênia Câmara.
Na faculdade de direito conviveu com outros poetas românticos importantes, além do intelectual baiano Rui Barbosa.
Destacava-se como poeta revolucionário e declamador muito eloquente. Durante uma caçada feriu-se acidentalmente com uma arma de fogo, como consequência teve o pé amputado e agravada sua doença pulmonar. Acabou voltando para salvador, e lá faleceu em 1871. Ele estava no auge de sua popularidade como poeta e declamador.
Sua obra representa um momento de maturidade e transição na poesia Romântica brasileira. Ele demonstrava maturidade e contraposição às atitudes ingênuas de seus predecessores carregadas de idealização e nacionalismo orgulhoso, em vez disso, Castro Alves retrata o lado feio e esquecido pelos primeiros Românticos; a escravidão dos negros, a opressão e a ignorância do povo brasileiro. Representava transição por que suas atitudes mais realistas apontavam para o movimento literário subsequente, o Realismo que já existia na Europa.
Castro Alves possuía uma sensibilidade em relação aos problemas críticos que o Brasil atravessava por volta de 1850. A Poesia de Castro Alves exercia uma função social, estilo que encontrou sua realização na metade do século XIX.
No entanto, como bom romântico, Castro Alves fez também poesias de caráter lírio-amoroso. Entretanto a mulher na obra de Castro Alves aparece como um ser concreto, mais real do que na obra dos outros poetas de sua época.

Texto retirado de “O navio negreiro”:

"Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.
'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...
'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...
Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.
Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!
Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!
Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!
Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...

..........................................................

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!
Albatroz! Albatroz! águia do oceano, 
Tu que dormes das nuvens entre as gazas, 
Sacode as penas, Leviathan do espaço, 
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.
 "


As duas flores
"São duas flores unidas
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo,no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.

Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!"

Referências Bibliográficas
Alves, Castro. Espumas flutuantes. Martin Claret. São Paulo. 2004.
MAGALHÃES,Tereza Cochar. CEREJA,Willian Roberto. Português linguagens volume 2, São Paulo 1994, Atual Editora.
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira, 1936. 44 edição1994. São Paulo. Cultrix.

FARACO, Carlos Emilio. MOURA. Francisco Marto. Língua e Literatura (1996) SP.

O real problema da educação paulista


Uma coisa que tem chamado muito a minha atenção nos últimos meses é a critica à educação brasileira ser centralizada na qualidade dos professores. Essa crítica vai desde a boa intenção dos professores até sua formação universitária, porém a realidade é bem diferente da fala teórica e utópica.
Quando digo teórica, não me refiro à teoria de maneira acadêmica que exige pesquisa, citações de autoridades no assunto e compromisso com a realidade. Pelo contrário, chamo teórica num sentido menos acadêmico, teoria como simplesmente ideia desvinculada da realidade, uma opinião infundada.
O grande desafio do magistério paulista não está na formação dos professores (é claro que existem casos e casos), já que a maioria dos professores que conheci, nesses quatro anos de magistério e treze escolas pelas quais passei, são pessoas de nível cultural elevado, que apreciam os estudos e buscam sempre melhorar como profissionais.
Também não podemos culpar as faculdades em cem por cento pelos problemas educacionais, até por que o bom professor não depende apenas do diploma, e sim procura progredir sempre em sua formação. Não se fixa em um método pedagógico, mas aprende todos e sempre adéqua sua metodologia às necessidades de seus alunos, observadas continuamente de maneira diagnóstica.
O grande problema da educação paulista é a indisciplina dos alunos em sala de aula. Uma das coisas mais básicas em qualquer situação em que se tem um professor, é entender que a explicação deve ser ouvida. Pois sem esta é muito difícil, talvez impossível, sequer o aluno saber o que está fazendo na escola.
Isso independe do método utilizado, simplesmente não há o diálogo. Alunos entram em sala de aula brincando e ignoram tudo o que o professor tem a dizer. Ficam o tempo inteiro falando alto e quando o professor pede para que eles deixem para conversar em outro momento, ou é ignorado ou desafiado.
É claro que não são todos os alunos que tem essa postura, geralmente é uma minoria em sala de aula que já desestabiliza e atrapalha todo o trabalho. Mas os números variam muito, às vezes temos turmas em que a maioria do alunos não quer prestar atenção na aula, muito menos fazer as atividades propostas.
Um fator bastante relevante é a diferença que existe no comportamento dos alunos de escola para escola. Em todas elas o professor deve saber conquistar o respeito e a atenção dos alunos, e cada um tem sua maneira de trabalhar. Porém temos “escolas e escolas”.
As escolas mais difíceis de trabalhar são as que ficam em regiões periféricas. São alunos que tem histórias de vida muito tristes. Pais separados, pai na cadeia, violência doméstica, suicídio na família, desprezo dos pais, falta de planejamento familiar, nenhum incentivo para estudar a não ser o bolsa família, uso de álcool e drogas ilícitas durante a adolescência, comportamento sexual precoce, etc.
Nas reuniões de pais, aparecem geralmente apenas os pais dos bons alunos (não é difícil deduzir por que são bons alunos), os que mais precisam de atenção dos pais simplesmente não a tem.

Mas aí surge a grande questão, “como o aluno se sentirá motivado a estudar se não há incentivo?”
Como professor procuro conscientizar os meus alunos da importância da escola em suas vidas e tento ao máximo fazê-los gostar da matéria para que haja alguma motivação. Mas isso nem sempre  é o suficiente,  os menores (quinta à sétima série) não entendem esse tipo de diálogo, acredito que alguns do ensino médio também não, ou porque sua capacidade de compreensão já está comprometida pelos muitos anos perdidos, ou não quer encarar a realidade.
Muitos alunos veem a escola como  o lugar que eles tem para extravasar suas mágoas e brincar o máximo possível com seus colegas sabendo que tem em casa uma realidade difícil para encarar. É claro que muitas vezes isso acontece de forma inconsciente e os coitados vão sendo levados pela vida.
Uma rigidez disciplinar em sala de aula aliada ao bom senso pode ajudar muito no trabalho do professor, mas com a aprovação automática e a falta de apoio que a escola tem dos pais tudo fica muito difícil.
O que mais me admira é ver que com tudo isso ainda há alunos que aprendem e professores que conseguem ensinar algo, até mesmo incentivar esses alunos a progredir na vida e enfrentar as dificuldades para encontrar seu próprio caminho.
Por isso não adianta o governo de São Paulo achar que com esses cursos básicos que eles proporcionam e trazem apenas conteúdos que todo professor conhece (geralmente nos primeiros semestres da faculdade) está melhorando a educação. O problema é muito mais sério. É uma questão de estrutura familiar, são pais com histórias complicadas de vida e infelizmente isso reflete na conduta escolar dos filhos.

Meu objetivo com esse simples texto não é demonizar pais ou alunos. Quero apenas levantar essa reflexão sobre o real problema da educação brasileira, especialmente da educação paulista. Para que não nos apeguemos ao mito de que uma boa educação depende apenas dos professores. 



Recado ao Senhor 903


(Rubem Braga)


   Vizinho - Quem fala aqui é o vizinho do 1003. Recebi, outro dia, consternado, a visita do zelador, que me mostrou a carta em que o senhor reclamava do barulho em meu apartamento. Recebi depois a sua própria visita pessoal - devia ser meia-noite - e sua veemente reclamação verbal. Devo dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento do prédio é explícito e, se o não fosse, o senhor ainda teria ao seu lado a Lei e a Polícia. Quem trabalha o dia inteiro tem direito ao repouso noturno e é impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e músicas no 1003. Ou melhor, é impossível ao 903 dormir quando o 1003 se agita, pois como não sei o seu nome nem o senhor sabe o meu, ficamos reduzidos a ser dois números, dois números empilhados entre dezenas de outros. Eu, 1003, me limito a leste pelo 1005, a oeste pelo 1001, ao sul pelo Oceano Atlântico, ao norte pelo 1004, ao alto pelo 1103 e embaixo pelo 903 - que é o senhor. Todos esses números são comportados e silenciosos; apenas eu e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois apenas nos agitamos e bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da lua. Prometo sinceramente adotar, depois das 22 horas, de hoje em diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo. Quem vier à minha casa (perdão, ao meu número) será convidado a se retirar às 21:45 e explicarei: O 903 precisa repousar das 22 às 7 pois às 8:15 deve deixar o 783 para tomar o 109 que o levará até o 527 de outra rua em que ele trabalha na sala 305. Nossa vida vizinho, está toda numerada; e reconheço que ela só pode ser tolerável quando um número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando dentro dos limites de seus algarismos. Peço-lhe desculpas - prometo silêncio...

...mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta de outro e dissesse: "Vizinho, são 3 horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou." E o outro respondesse: "Entra, vizinho e come do meu pão e bebe do meu vinho! Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a vida é bela."

E o homem trouxesse sua mulher e os dois ficassem entre os amigos e amigas do vizinho entoando canções para agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores e o dom da vida, e a amizade entre os humanos, e o amor e a paz.

Vidas em Português

O documentário Vidas em Português mostra em seis países  como a língua portuguesa é utilizada por pessoas de culturas, crenças e hábitos totalmente diferentes. É um documentário muito rico culturalmente e linguisticamente, que conta com a participação de pessoas simples e de algumas celebridades como os escritores Mia Couto e José Saramago.


Só se vê bem com o coração





Mas aconteceu que o principezinho, tendo andado muito tempo pelas areias, pelas rochas e pela neve, descobriu, enfim, uma estrada. E as estradas vão todas na direção dos homens.

- Bom dia, disse ele.
Era um jardim cheio de rosas.
- Bom dia, disseram as rosas.
O principezinho contemplou-as. Eram todas iguais à sua flor.
- Quem sois? perguntou ele estupefato.
- Somos rosas, disseram as rosas.
- Ah! exclamou o principezinho...
E ele sentiu-se extremamente infeliz. Sua flor lhe havia contado que ela era a única de sua espécie em todo o universo. E eis que havia cinco mil, iguaizinhas, num só jardim!
"Ela haveria de ficar bem vermelha, pensou ele, se visse isto... Começaria a tossir, fingiria morrer, para escapar do ridículo. E eu então teria que fingir que cuidava dela; porque senão, só para me humilhar, ela era bem capaz de morrer de verdade..."
Depois, refletiu ainda: "Eu me julgava rico de uma flor sem igual, e é apenas uma rosa comum que eu possuo. Uma rosa e três vulcões que me dão pelo joelho, um dos quais extinto para sempre. Isso não faz de mim um príncipe muito grande..." E, deitado na relva, ele chorou.
E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"?
- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?
- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
- É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra...
- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.
A raposa pareceu intrigada:
- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito, suspirou a raposa.
Mas a raposa voltou à sua ideia.
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.
O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada!
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou:
- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te contarei um segredo.
Foi o principezinho rever as rosas:
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela á agora única no mundo.
E as rosas estavam desapontadas.
- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o para- vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.
E voltou, então, à raposa:
- Adeus, disse ele...
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...

No meio do caminho




No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra .


(Carlos Drummond de Andrade)

Poemas dos meus alunos na E.E São Pedro

Sentimento

Eu queria me entender

Eu queria contar contos,

E ser reconhecida.

Eu queria viver, além do

Que vejo, eu queria sentir além

Do que sinto.

Viver por amor e morrer

Da ingratidão...

Sentindo meus pés tocarem

O chão molhado de uma

Chuva de verão...

Eu queria olhar o por-do-Sol

da minha sacada

Adormecer a escuridão da

Noite... Apreciar os astronautas

como se fossem os que

traziam tudo que queremos

saber sobre planetas...

Mas é simples não precisamos

De foguetes ou telescópios...

Basta sentar sobre a areia

E apreciar cada brilho

reluzente de uma Estrela

Ouvir o que o vento nos diz

Basta apenas sentir...

(Crislane Landim)


Amor e Vida

Eu amo a vida e amo viver.

Viver é tudo, para continuidade da vida.

Viver é amar, quando amamos flutuamos.

Quando flutuamos chegamos às nuvens.

Como seria bom se esse sonho não acabasse

A vida muitas vezes nos prega peças com o amor.

Vai embora, ficamos tristes desamparados, mas nunca

deixando de viver cada dia da vida como se

fosse o último.

A vida é maravilhosa, aproveite.

(Eliandro Gomes)


Tempo

Em tão pouco tempo

Não consigo te conhecer

Em tão pouco tempo

quero te entender


Você é bem assim

Difícil de compreender

E muito mais de conhecer

Forte mesmo assim!


Quando te vejo guardo seu olhar

Para com você um fato me recordar

Por que você é bem assim

Um dia pra ele outro pra mim


Você tem um estilo que me atrai

Um estolo psy

Eu só quero te encontrar

para um dia poder te amar.

(Felipe)


Amei

Se os meus lábios não lhe falam

E meus olhos não me entregam.

Como poderei dizer

Que te amei

Mas a felicidade está em mim

Pois se nada tenho

Por tudo lutei

E sem me arrempender de nada

Num futuro poderei dizer

Tentei.

(Roselaine Lisboa)


Poema

Que nome lindo, que nome belo

Sei que te amo, sei que te quero.

Tem pesoas que passa

Pelas nossas vidas e deiam

Um pouco de si, outras

Passam e levam um poudo

De nós, tem outras que não

Passam, simplesmente ficam

Como você!

(Nayara)


Olhava o céu, farta e cansada. Buscava respostas imcompreensíveis, esperava o que nunca chegou, procurei o que jamais achei.

Certa vez cansei, perdi o fôlego, o ânimo, a coragem e desabafei. Um desabafo que me corroia a alma, e me atormentava os dias.

Mas quando me vi ali diante de uma humanidade tão obscura, minhas dúvidas voltaram, minha obsessão e curiosidade também. Aí percebi que aquilo que me motivava, que me impulsionava para frente!

(Michele Araujo)



O Guardador de Rebanhos II - Alberto Caeiro



"Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar..."


O retrato de Dorian Gray


O Retrato de Dorian Gray (no original em inglês, The Picture of Dorian Gray) é um romance publicado por Oscar Wilde, considerado um dos grandes escritores irlandeses do século XIX.

Enredo
Tudo começa quando um pintor chamado Basil Hallward recebe a visita de um amigo seu chamado Lorde Henry Wotton, e comenta sobre a impressionante beleza de seu modelo, um jovem chamado Dorian Gray. Lorde Henry conhece Doryan durante a pintura de um quadro, e também se impressiona com sua beleza. Henry fala para o rapaz que é uma pena uma pessoa tão bela ter que envelhecer um dia, atiçando assim desejos novos no coração do jovem Dorian. Quando o quadro termina todos ficam impressionados pela perfeição da obra que pode retratar toda a beleza de Doryan Gray. Ao ver o quadro o Jovem sente inveja e se estabelece o conflito da trama com as seguintes palavras do modelo :

“...mas este retrato se conservará eternamente jovem. Nele nunca serei mais idoso do que neste dia de junho... Se fosse o contrário! Se eu pudesse ser sempre moço, se o quadro envelhecesse!... Por isso, por esse milagre, eu daria tudo! Sim, não há nada no mundo que eu não estivesse pronto a dar em troca. Daria até a minha alma...”(pag. 36)

Dorian passa a se envolver cada vez mais em sua amizade com Lorde Henry. Com o Tempo Doryan se apaixona por uma atriz chamada Sibyl Vane, ele se empolga muito com a moça falando dela com muita paixão para seus amigos. Sibyl fala para seu irmão do seu amor por Doryan, e o seu irmão promete que se Doryan causar algum sofrimento para Sibyl irá matá-lo.
Influenciado por Lorde Henry, Dorian despreza Sibyl. Desesperada ela se mata. Dorian descobre que o quadro pintado anteriormente muda um pouco a fisionomia, percebendo assim que seu pedido havia sido atendido.
Passam-se dezoito anos e Doryan se entrega a maldades sem limites, levando para o mal caminho muitas moças e rapazes, contudo Doryan permanece com uma aparência jovem e bela enquanto a sua imagem no quadro fica cada vez mais horrível.
Um dia Basil visita Doryan que mostra para o amigo o segredo do quadro. Basil pede a Dorian que destrua o quadro e se converta ao Crsitianismo. Chega o clímax da obra quando Dorya Gray chega ao ápice de sua maldade, aproveita um momento de distração de Basil e crava uma faca em seu antigo amigo, matanto-o de forma cruel.
Passado esse acontecimento Doryan encotra o irmão de Sibyl que tenta matá-lo, mas consegue fugir. Passa então a sentir muito medo, que é aliviado quando Doryan decobre que seu algoz morre.
A trama tem o seu desfecho quando Doryan decide então deixar de viver de forma dissoluta e tenta destruir o quadro. Usa a mesma adaga que usou para matar Basil. Quando ele enfia a adaga no quadro é como se ele atravessasse com aquela adaga sua própria alma e cai morto. O quadro volta à sua imagem normal e Doryan se torna horrível sendo reconhecido apenas pelos anéis.

WILDE, Oscar. in O retrato de Dorian Gray.

A hora da estrela



O romance “A hora da estrela” de Clarice Lispector conta a estória de uma moça nordestina chamada Macabéa. O nome Macabéa tem um significado oposto à personagem do Romance, ele vem de uma história que se encontra na Bíblia, Judas Macabeu foi o líder judeu que se revoltou contra o domínio Grego-Macedônico e libertou o país da humilhante invasão estrangeira

Este texto é uma interpretação bem particular, mas acredito que tenha relação com a mensagem da obra..

Macabéa, assim chamada de forma irônica, é uma moça nordestina que desde a infância foi privada daquilo que lhe proporcionava alegria. Sua tia batia constantemente em sua cabeça com “cascudos” e privava a pequena Macabéa da única paixão da sua vida que era doce de goiaba com queijo. Desde muito cedo foi ensinada dessa forma cruel, que não podia ter o que desejava.
Quando cresce, Macabéa vai morar no Rio de Janeiro e começa a trabalhar como datilógrafa. Gosta muito de coca-cola e da atriz Marilyn Monroe, ouvir rádio relógio, e recortar figuras de revistas.
Conhece um rapaz chamado Olímpico, passam a namorar, mas Olímpico a maltrata com suas palavras cruéis, entretanto Macabéa não esboça reação.
O namoro de Macabéa não dura muito, Olímpico revoltado com a passividade de Macabéa a troca por sua colega de trabalho Glória.
Macabéa seguindo o conselho de Glória consulta uma cartomante. A cartomante lhe faz muitas promessas, promessas de um futuro bom. Toda feliz, Macabea sai da casa da cartomante “uma pessoa grávida de futuro” (pag.79). Pela primeira vez enxergando seus problemas e pensando em melhorar de vida. Mas um Mercedes atropelou a pobre Macabéa que caiu e agonizando morreu.

Macabéa é um exemplo de alienação, tudo nela é exagerado. Mas muitas pessoas tornam-se também “Macabéas”. Uma pessoa totalmente alienada e conformada. A Macabéa aprendeu com a tia que não deveria desejar, ou que se desejasse não poderia ter. Fechada no seu mundinho, sem se abrir para novas possibilidades, da mesma forma as pessoas (não sei se a maioria), vivem alienadas.
Assim como a Macabéa adorava coca-cola e a falecida atriz Marilyn Monroe,o povo de nosso país admira em demasia tudo o que vem dos estados unidos, e esquece de suas principais necessidades, esquece que a vida pode ser muito mais do que comer o lixo que é jogado dos EUA.
Assim como Macabéa, muitas pessoas vivem alienadas sem se abrir para a vida, sem ampliarem sua visão de mundo. Correm atrás de ilusões e quando acordam já está tarde. As atividades de lazer de Macabéa parecem engraçadas pela sua futilidade, mas e as nossas? Será que não vivemos também numa rotina que nos escraviza? Será que não temos também um pouco de Macabéa em nossas atitudes e escolhas? O principal problema de Macabéa era achar que a vida era apenas o que ela enxergava!



LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela.. Rio de Janeiro. Rocco. 1998